"Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

(Clarice Lispector: A Legião Estrangeira)

Terça-feira, Maio 29

Junção de Trechos do Documentário Zeitgeist.

Eu não tenho de dizer que as coisas estão más. Toda a gente sabe que as coisas estão más. O dólar compra tudo. Os bancos fazem a festa. Os donos das lojas têm armas por baixo dos balcões. Os jovens tornam-se cada vez mais selvagens. Não parece haver alguém que saiba o que fazer e como acabar com isto.

Nós sabemos que as coisas estão más. Pior que más. É uma idiotice desenfreada. É como se tudo ao mesmo tempo estivesse endoidecendo, e não saímos mais. Sentamo-nos em casa e lentamente o mundo em que vivemos vai ficando cada vez mais pequeno. E tudo o que dizemos é “Por favor, deixem-me sozinho na minha sala de estar! Deixe-me ficar com minha tostadeira, com a minha TV e eu não digo nada. Deixem-nos em paz!”
Mas eu não vou deixar vocês em paz. Eu quero que enlouqueçam!

Eu não sei o que fazer sobre a depressão, a inflação, os russos e o crime nas ruas. Tudo o que sei é que o primeiro tem que enlouquecer, tem que dizer “Sou um Ser Humano, porra! A minha vida tem valor!”.

Pergunte a si próprio a razão pela qual uma cultura inteira está atulhada de entretenimento massificado por todos os lados, enquanto o sistema educacional continua a estupidificar a camada jovem. (...) O governo só paga por aquilo que quer. (...) Eles não querem que saibamos pensar. Esta é a razão pela qual o nosso mundo se tornou tão cheio de entretenimento, mídia massificada, programas de televisão, parques de diversão, drogas, álcool, e todo o tipo de entretenimento, serve para manter o ser humano entretido. Para que não se meta no caminho das pessoas importantes e aprenda a pensar direito. É melhor você acordar e perceber que há pessoas que tomam decisões que influenciam a sua vida, e que você anda “distraído”.

Porque menos de 3% de vocês lêem livros. Porque menos de 15% de vocês lêem jornais. A única verdade que conhecem é aquela que vêem “nesta caixa” (televisão). Agora existe toda uma geração que nunca soube nada, que nunca saiu de frente da caixa. Esta caixa é a verdade absoluta, a última revelação. Esta caixa pode construir ou destruir presidentes, papas, primeiros ministros, Esta caixa é a força mais poderosa deste mundo e ai de nós, se algum dia cair nas mãos erradas. E quando a maior empresa do mundo controlar a maior e mais perfeita máquina de propaganda jamais criada, quem saberá que merda ainda virá nesta rede!

Prestem atenção! Vocês prestem bem atenção: A televisão não é a verdade! A televisão é uma porra de um parque de diversões. A televisão é um circo, um carnaval, uma parada de acrobacias, contadores de histórias, cômicos, cantores, malabaristas, domadores de leões e jogadores de futebol! É um negócio de matança pelo aborrecimento. Mas vocês estão aí sentados dia após dia, noite após noite, cores e credos. Nós somos tudo aquilo que vocês sabem. Vocês começam a acreditar nas ilusões que pomos aqui, começam a acreditar esta “caixa” é a realidade e as suas vidas não são reais. Vocês fazem tudo o que a caixa lhes diz para fazer. Vocês vestem-se e comem como neste caixote, criam as crianças como vêem na tela e até pensam como os seres do caixote. Isto é alienação em massa, seus dementes! Vocês é que são reais, pensem: nós não somos a ilusão!

“Zeitgeist”. Documentário. 2007.


Quinta-feira, Maio 24

agora tudo ficou claro!

na astrologia, minha "casa 05", que é a porta para a reprodução artística, da criatividade e do amor, fica em escorpião!

não, isto não é sobre você.

Eu passei a maior parte da noite tendo sonhos com você. Foram vários, e em cada um deles, ao te ver, eu não tinha o controle sobre mim, eu não acordava, mesmo quando, em pequenos momentos de lucidez onírica, eu sabia que era apenas sonho; eu não acordava, eu continuava a sonhar e fui até o fim de cada um deles. Acordei tarde e, enquanto eu despertava, havia uma enxurrada de você sobre a minha cabeça. Um tanto cansado por todas as vezes que isto acontece, eu levantei e tomei banho. Lavei com força os cabelos com xampu, fechei os olhos e a água eu deixei cair forte sobre mim, mas mesmo assim, depois do banho, alguns pedaços de ti que saíram da minha cabeça escorreram pelo corpo e permaneceram cravados em algumas partes: nos braços, na nuca, no caminho da coluna vertebral até mais embaixo, outro pedaço entre o meio das pernas, no umbigo, entre os dedos dos pés. Mas fui viver o dia porque hoje tenho obrigações mais concisas que antes, e fui, mesmo sentindo ódio. Porque eu sinto ódio quando eu passo a maior parte da noite sonhando contigo e acordo com um gosto amargo na boca, e mesmo tomando banho e escovando os dentes, você permanece me atormentando o dia. Hoje eu já nem me importo tanto. Mas, ainda assim, me importo. E sempre sinto ódio. Eu sinto tanto ódio. Por ser fraco, por ainda não ter conseguido. E me distraio de mim mesmo e de você vivendo o dia, ninguém percebe que há pedaços de você em mim. No máximo, notam meu cabelo assanhado. Até que chegue a noite e eu dê o último suspiro antes de fechar os olhos para abri-los no dia seguinte, ainda há ódio em mim pelas partes de ti que ainda permaneceram e que não evaporaram com o decorrer do dia. Nessas horas eu antes costumava não dormir. Eu quase explodia, porque sempre ficou claro em mim que é quando isso acontece que eu chego ao extremo de mim: sentir ódio, e além de ódio, um Amor tremendo, e que aje ao mesmo tempo em que eu sinto ódio. Se eu ainda não consegui tirar pedaços que tanto odeio de ti em mim é porque eu sinto também Amor. É porque esses pedaços me causam Amor, e sou eu quem me causo ódio por eles me causarem Amor e eu não aceitar. Porque é um Amor maldito, e não vermelho, e não roxo. E fatalmente, para o meu próprio mal, eu já me acostumei a isso.

Quarta-feira, Maio 23

a três ruas da minha casa, você.

  
 um texto de importância frouxa.


 O espaço entre eu e você é apenas aparentemente vazio. Há muita coisa entre eu e você. O que sei – sabemos, pois eu sei que você também sabe – é que para que eu considere você e você me considere, formando, portanto, um eu-e-você, é preciso que haja algo no espaço entre nós. Acontece que eu quero que este algo que há entre eu e você seja engolido por nós, para que não exista mais impasses, de modo que possamos caminhar um em direção ao outro, sem barreira alguma impedindo, sem que preceito algum nos enfraqueça os passos, sem que incerteza alguma nos faça desistir. Pois para que eu ande até você e ao menos toque o meu corpo no teu corpo, para que você me permita te olhar nos olhos por mais de três segundos, para que a minha mão possa pousar mansa e leve sobre o teu ombro, para que o meu nariz possa chegar próximo do teu pescoço o suficiente para que eu sinta o cheiro do teu couro, para que os meus lábios possam, secos e macios, tocar o teu rosto, para que eu entre e você e para que você entre em mim é preciso nós dois engolirmos tudo o que há no espaço entre eu e você.

   Você vem na minha direção oposta nas ruas, mas antes de passar por mim, você me olha. Você não olha e por acaso me vê; você me olha, procurando me ver, e me enxerga. Você sabe que sou eu que estou na rua, passando por você, pois que, por sorte do destino e por conta das probabilidades, cruzamos a mesma rua ao mesmo tempo. Eu quero te parar no meio do caminho que você faz passando ao meu lado e seguindo em frente. Eu quero te barrar o trajeto, te dizer que não precisa continuar a andar, que você já chegou, que eu já cheguei, que eu estou aqui, olha. Vem. Eu quero dizer. Só que não digo, mas no meu olhar você sabe que eu tenho coisas a dizer, só não sabe que há tanta coisa assim pra te dizer: eu limito o que o meu olhar te passa. Ele não pode te passar muita coisa porque você talvez se assustasse se enxergasse o quão fundo é o meu olhar. Não é à toa que os meus olhos são assim tão negros. Se tivéssemos ultrapassado essa barreira que nos impede de nos aproximarmos, de dar os passos que nos afastam um do outro, eu te olharia. E só te olharia. Nunca nem mesmo ouvi a tua voz, mas imaginando-a, de tanto te olhar, você me perguntaria por que tanto eu te olho e eu te responderia:

   - Eu só estou te olhando – e continuaria a olhar.
   Eu passaria o dia inteiro te olhando, eu passaria tantas horas te olhando. E todas as vezes que você perguntasse, em cada uma eu te responderia:
   - É que eu só estou te olhando.

   Por todas as vezes que eu quis te olhar por mais tempo e você tinha de passar e ir embora, por todas as vezes que você também me olhava e eu tinha de passar e ir embora, por todas as vezes que você parava ao alcance da minha vista e eu não te olhava por tanto tempo quanto eu queria que era para que ninguém percebesse que eu estava te olhando, que era pro meu olhar não extrapolar os meus limites e te olhar penetrante demais, que era pra você não perceber que eu te olhava tanto. Se você percebia que eu te olhava eu parava de te olhar no mesmo instante, mas não sem uma satisfação por saber que você sabia que eu estava te olhando, como a satisfação que eu senti quando te olhei uma vez e você já estava me olhando e me surpreendeu e quase me arrancou o coração pela boca quando – era verdade! – eu vi que você estava sorrindo para mim. Tímido, rápido, escondido. Mas verdadeiro, mas real. Mas inteiro. E por teu olhar ter acompanhado a direção do meu eu percebi que você sorria para mim e que esse sorriso era uma coisa boa. Ah, se você quisesse eu te faria o personagem principal do meu filme.

   Alimento isso tudo porque isso tudo não pesa em mim, mas me eleva um pouco. Não ando: flutuo. Me faz o coração acelerar e o sangue correr mais rápido e eu gosto disso, e como eu gosto, e como você também não acha ruim, pois se achasse você teria cessado, mas não cessou, eu alimento tudo. Outros, se não quisessem, cessariam, naturalmente. Mas você não. Você continuou e continua a olhar. E sorriu. E me deixa sentir que você quer continuar assim. Não faz mal a ninguém. Nem a mim e nem a você. E não vou além daqui porque ir além daqui pode significar um não, pode significar um sim. E por eu ter o coração que tenho, eu não sei se eu quero um não. E eu não sei se eu quero um sim.